L i v r o

Livro é um volume transportável, composto por páginas, sem contar as capas, encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens e que forma uma publicação unitária (ou foi concebido como tal) ou a parte principal de um trabalho literário, científico ou outro.

Em ciência da informação o livro é chamado monografia, para distingui-lo de outros tipos de publicação como revistas, periódicos, teses, tesauros, etc.

O livro é um produto intelectual e, como tal, encerra conhecimento e expressões individuais ou colectivas. Mas também é nos dias de hoje um produto de consumo, um bem e sendo assim a parte final de sua produção é realizada por meios industriais (impressão e distribuição). A tarefa de criar um conteúdo passível de ser transformado em livro é tarefa do autor. Já a produção dos livros, no que concerne a transformar os originais em um produto comercializável, é tarefa do editor, em geral contratado por uma editora. Uma terceira função associada ao livro é a coleta e organização e indexação de coleções de livros, típica do bibliotecário.

Abaixo segue 05 artigos sobre a história, a origem e a evolução, do livro, leia e fique por dentro.

 

Artigo 01

História do Livro

 

A história do livro é uma história de inovações técnicas que permitiram a melhora da conservação dos livros e do acesso à informação, da facilidade em manuseá-lo e produzi-lo. Esta história é intimamente ligada às contingências políticas e econômicas e à história de idéias e religiões.

 

Antiguidade

 

Na Antiguidade surge a escrita, anteriormente ao texto e ao livro. A escrita consiste de código capaz de transmitir e conservar noções abstratas ou valores concretos, em resumo: palavras. É importante destacar aqui que o meio condiciona o signo, ou seja, a escrita foi em certo sentido orientada por esse tipo de suporte; não se esculpe em papel ou se escreve no mármore.

Os primeiros suportes utilizados para a escrita foram tabuletas de argila ou de pedra. A seguir veio o khartés (volumen para os romanos, forma pela qual ficou mais conhecido), que consistia em um cilindro de papiro, facilmente transportado. O "volumen" era desenrolado conforme ia sendo lido, e o texto era escrito em colunas na maioria das vezes (e não no sentido do eixo cilíndrico, como se acredita). Algumas vezes um mesmo cilindro continha várias obras, sendo chamado então de tomo. O comprimento total de um "volumen" era de c. 6 ou 7 metros, e quando enrolado seu diâmetro chegava a 6 centímetros.

O papiro consiste em uma parte da planta, que era liberada, livrada (latim libere, livre) do restante da planta - daí surge a palavra liber libri, em latim, e posteriormente livro em português. Os fragmentos de papiros mais "recentes" são datados do século II a.C..

Aos poucos o papiro é substituído pelo pergaminho, excerto de couro bovino ou de outros animais. A vantagem do pergaminho é que ele se conserva mais ao longo do tempo. O nome pergaminho deriva de Pérgamo, cidade da Ásia menor onde teria sido inventado e onde era muito usado. O "volumen" também foi substituído pelo códex, que era uma compilação de páginas, não mais um rolo. O códex surgiu entre os gregos como forma de codificar as leis, mas foi aperfeiçoado pelos romanos nos primeiros anos da Era Cristã. O uso do formato códice (ou códice) e do pergaminho era complementar, pois era muito mais fácil costurar códices de pergaminho do que de papiro.

Uma conseqüência fundamental do códice é que ele faz com que se comece a pensar no livro como objeto, identificando definitivamente a obra com o livro.

A consolidação do códex acontece em Roma, como já citado. Em Roma a leitura ocorria tanto em público (para a plebe), evento chamado recitatio, como em particular, para os ricos. Além disso, é muito provável que em Roma tenha surgido pela primeira vez a leitura por lazer (voluptas), desvinculada do senso prático que a caracterizara até então. Os livros eram adquiridos em livrarias. Assim aparece também a figura do editor, com Atticus, homem de grande senso mercantil. Algumas obras eram encomendadas pelos governantes, como a Eneida, encomendada a Virgílio por Augusto.

Acredita-se que o sucesso da religião cristã se deve em grande parte ao surgimento do códice, pois a partir de então tornou-se mais fácil distribuir informações em forma escrita.

 

Idade Média

 

Na idade Média o livro sofre um pouco, na Europa, as consequências do excessivo fervor religioso, e passa a ser considerado em si como um objeto de salvação. A característica mais marcante da Idade Média é o surgimento do monges copistas, homens dedicados em período integral a reproduzir as obras, herdeiros dos escribas egípcios ou dos libraii romanos. Nos mosteiros era conservada a cultura da Antiguidade. Apareceram nessa época os textos didáticos, destinados à formação dos religiosos.

O livro continua sua evolução com o aparecimento de margens e páginas em branco. Também surge a pontuação no texto, bem como o uso de letras maiúsculas. Também aparecem índices, sumários e resumos, e na categoria de gêneros, além do didático, aparecem os florilégios (coletâneas de vários autores), os textos auxiliares e os textos eróticos. Progressivamente aparecem livros em língua vernacular, rompendo com o monopólio do latim na literatura. O papel passa a substituir o pergaminho.

Mas a invenção mais importante, já no limite da Idade Média, foi a impressão, no século XIV. Consistia originalmente da gravação em blocos de madeira do conteúdo de cada página do livro; os blocos eram mergulhados em tinta, e o conteúdo transferido para o papel, produzindo várias cópias. Foi em 1405 surgia na China, por meio de Pi Sheng, a máquina impressora de tipos móveis, mas a tecnologia que provocaria uma revolução cultural moderna foi desenvolvida por Johannes Gutenberg.

 

Idade Moderna

 

No Ocidente, em 1455, Johannes Gutenberg inventa a imprensa com tipos móveis reutilizáveis, o primeiro livro impresso nessa técnica foi a Bíblia em latim. Houve certa resistência por parte dos copistas, pois a impressora punha em causa a sua ocupação. Mas com a impressora de tipos móveis, o livro popularizou-se definitivamente, tornando-se mais acessível pela redução enorme dos custos da produção em série.

Com o surgimento da imprensa desenvolveu-se a técnica da tipografia, da qual dependia a confiabilidade do texto e a capacidade do mesmo para atingir um grande público. As necessidades do tipo móvel exigiram um novo desenho de letras; caligrafias antigas, como a Carolíngea, estavam destinadas ao ostracismo, pois seu excesso de detalhes e fios delgados era impraticável, tecnicamente.

Uma das figuras mais importantes do início da tipografia é o italiano Aldus Manutius. Ele foi importante no processo de maturidade do projeto tipográfico, o que hoje chamariamos de design gráfico ou editorial. A maturidade desta nova técnica levou, entretanto, cerca de um século.

 

Idade Comteporânea

 

Cada vez mais aparece a informação não-linear, seja por meio dos jornais, seja da enciclopédia. Novas mídias acabam influenciando e relacionando-se com a indústria editoral: os registros sonoros, a fotografia e o cinema.

O acabamento dos livros sofre grandes avanços, surgindo aquilo que conhecemos como edições de luxo.

 

Livro Eletrônico

 

De acordo com a definição dada no início, o livro deve ser composto de um grupo de páginas encadernadas e ser portável. Entretanto, mesmo não obedecendo a essas características, surgiu em fins do século XX o livro eletrônico, ou seja, o livro num suporte eletrônico, o computador. Ainda é cedo para dizer se o livro eletrônico é um continuador do livro típico ou uma variante, mas como mídia ele vem ganhando espaço, o que de certo modo amedronta os amantes do livro típico - os bibliófilos.

Existem livros eletrônicos disponíveis tanto para computadores de mesa quanto para computadores de mão, os palmtops. Uma dificuldade que o livro eletrônico encontra é que a leitura num suporte de papel é cerca de 1,2 vez mais rápida do que em um suporte eletrônico, mas pesquisas vêm sendo feitas no sentido de melhorar a visualização dos livros eletrônicos.

 

Produção do Livro

 

A criação do conteúdo de um livro pode ser realizada tanto por um autor sozinho quanto por uma equipe de colaboradores, pesquisadores, co-autores e ilustradores. Tendo o manuscrito terminado, inicia a busca de uma editora que se interesse pela publicação da obra (caso não tenha sido encomendada). O autor oferece ao editor os direitos de reprodução industrial do manuscrito, cabendo a ele a publicação do manuscrito em livro. As suas funções do editor são intelectuais e econômicas: deve selecionar um conteúdo de valor e que seja vendável em quantidade passível de gerar lucros ou mais-valias para a empresa. Modernamente o desinteresse de editores comerciais por obras de valor mas sem garantias de lucros tem sido compensado pela atuação de editoras universitárias (pelo menos no que tange a trabalhos científicos e artísticos).

Cabe ao editor sugerir alterações ao autor, com vista a ajustar o livro ao mercado. Essas alterações podem passar pela editoriação do texto, ou pelo acréscimo de elementos que possam beneficiar a utilização/comercialização do mesmo pelo leitor. Uma editora é composta pelo Departamento editorial, de produção, comercial, de Marketing, assim como vários outros serviços necessários ao funcionamento de uma empresa, podendo variar consoante as funções e serviços exercidos pela empresa. Na mesma trabalham os editores, revisores, gráficos e designers, capistas, etc. Uma editora não é necessariamente o produtor do livro, sendo que quase sempre essa função de reprodução mecânica de um original editado é feita por oficinas gráficas em regime de prestação de serviço. Dessa forma, o trabalho industrial principal de uma editora é confeccionar o modelo de livro-objeto, trabalho que se dá através dos processos de edição e composição gráfica/digital.

 

Livros

 

A fase de produção do livro é composta pela impressão (posterior à imposição e montagem em cadernos - hoje em dia digital), o alceamento e o encapamento. Podendo ainda existir várias outras funções adicionais de acréscimo de valor ao produto, nomeadamente à capa, com a plastificação, relevos, pigmentação, e outros acabamentos.

Terminada a edição do livro, ele é embalado e distribuído, sendo encaminhado para os diferentes canais de venda, como os livreiros, para daí chegar ao público final.

Pelo exposto acima, talvez devêssemos considerar que a categoria livro seja a concepção de uma coleção de registros em algum suporte capaz de transmitir e conservar noções abstratas ou valores concretos. No início de 2007, foi noticiada a invenção e fabricação, na Alemanha, de um papel eletrônico, no qual são escritos livros.

 

Classificação dos Livros

 

Os livros atualmente podem ser classificados de acordo com seu conteúdo em duas grandes categorias: livros de leitura seqüencial e obras de referência (anuário, bibliografia, dicionário, manual, enciclopédia, guia turístico, livro didático, relatório, vade mecum e poesias).

 

Curiosidades

A Bíblia é o livro mais vendido do mundo.

O Guiness World Book of Records é o segundo livro mais vendido no mundo.

Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling, é atualmente o livro que vendeu mais cópias em menos tempo.

 

Referências

Dados da Unesco.

 

Bibliografia

FEBVRE, Lucien. O aparecimento do livro. São Paulo : Unesp, 1992.

KATZENSTEIN, Ursula. A origem do livro. Sao Paulo : Hucitec, 1986.

SCORTECCI, João. Guia do Profissional do Livro. São Paulo : scortecci, 2007.

 

 

Artigo 02

ORIGEM E SIGNIFICADO DO LIVRO

 

Há evidências de que no terceiro milênio a.C. os egípcios submetiam o caule de uma planta chamada papiro a um processo de corte, secagem, junção de camadas e umedecimento do qual resultava uma substância compacta. Depois de seca e polida, esta substância formava um conjunto de folhas, coladas em faixas largas, com altura máxima de trinta e sete centímetros, onde se podia escrever e desenhar. Para registrar a linguagem no papiro, os egípcios usavam uma espécie de junco cortado obliquamente e impregnado de uma tinta escura, feita à base de carvão vegetal e cola.

Porém, a arte da escrita nascera antes. Sumérios e assírios já tinham um sistema de traços para anotar a fala. Só que o faziam em pedras ou plaquetas de argila, materiais de difícil escritura e de transporte complicado. O papiro egípcio, ao contrário, além da facilidade do registro apresentava grande mobilidade por se apresentar sob a forma de rolos. No século VI a.C., na Grécia, a utilização do papiro já era freqüente e, nos séculos seguintes, já havia um considerável número de livros à disposição, indicando o hábito de leitura da elite grega. Aristóteles, por exemplo, possuía notável coleção de manuscritos. Poetas como Arquíloco e Safo eram lidos por um público expressivo. Atores que representavam as tragédias necessariamente tinham cópias das mesmas. E o próprio Platão referiu-se ao fato de que os livros não eram dispendiosos.

A grande síntese da cultura antiga foi a biblioteca de Alexandria - fundada por Ptolomeu II em... e que teria sido destruída por um incêndio em... Esta maravilhosa compilação de todo o saber humano, produzido até aquela data, chegou a ter setecentos mil rolos.

Também os romanos deram contribuição à história do livro. Com seu senso comercial, criaram verdadeiros "negócios editoriais", como a cópia de livros (em média duzentos exemplares de cada original), geralmente feita por escravos; o estabelecimento de livrarias que anunciavam através de cartazes os próximos lançamentos; e a distribuição dos textos a livreiros espalhados pelas maiores cidades do Império. A exemplo de hoje, para atrair a clientela, os autores costumavam realizar leitura pública de suas obras. Surgiram também os colecionadores privados (bibliófilos), que faziam de sua biblioteca particular um sinal de riqueza e distinção intelectual. O filósofo Sêneca se queixava deles, dizendo que a maioria colecionava livros apenas por exibicionismo. Fora isso, os imperadores estabeleceram dezenas de bibliotecas públicas, infelizmente queimadas pelos bárbaros que invadiram e aniquilaram o Império.

 

O livro em pergaminho (códice)

 

Além da escrita em vegetal, surgiu também aquela registrada sobre couro ou pele de animal: o pergaminho. Tão flexível quanto o papiro, o pergaminho era, no entanto, muito mais resistente, sobretudo ao ataque de insetos e à umidade. Além disso, podia ser apagado e, sobretudo, pela consistência da pele, podia ser disposto em superfícies retangulares ou quadradas, formando páginas. O passo seguinte foi a costura dessas páginas em cadernos com todas as características externas que hoje encontramos nos livros. O termo codex ou códice refere-se a esse tipo de livro manuscrito. Surgiu a partir daí a numeração das páginas, para o caso de extravio de alguma folha, algo que não ocorria com os rolos de papiro. Muitos desses trabalhos eram artisticamente ornamentados com gravuras, miniaturas e desenhos feitos com tintas e pó de ouro. Viravam assim autênticas peças de arte. As encadernações em couro completavam o valor quase de relíquia desses livros.

O uso do pergaminho tornou-se comum a partir dos séculos IV e V de nossa era. Coincidiu com o fim do Império Romano, com a cisão entre o Oriente e o Ocidente e com o vandalismo religioso que arrasou bibliotecas e tudo aquilo que representasse paganismo. É verdade que o Império Bizantino (Oriente) cumpriu sua missão de preservar a cultura clássica até a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. Significativamente, os árabes que conquistaram a Península Ibérica aproximaram-se do pensamento grego (sobremodo filósofos e médicos), revelando não apenas curiosidade espiritual como invejável tolerância, traduzidas na preservação e divulgação de manuscritos antigos.

A própria Igreja Católica, apesar de sua desconfiança em relação ao mundo clássico, transformou mais de trezentos mosteiros em centros de difusão religioso-cultural, onde infatigáveis copistas reproduziam manuscritos. Um historiador recente escreveu a respeito deles:

A cultura foi uma ampla sucessão de copistas. Sobre o pergaminho e, mais tarde, sobre o papel, ouviu-se sempre o ruído sutil de um instrumento riscando a superfície original de uma folha em branco. Chegam até nós as vozes cansadas dos velhos copistas quando ainda tinham de cumprir sua penosa tarefa, passando o limite do crepúsculo, com falta de luz.

 

O papel e a imprensa

 

A invenção do papel pelos chineses no século I a.C. foi a condição indispensável para a invenção da imprensa, mil e quinhentos anos depois. O uso do papel só se difundiu na Europa quando os árabes conheceram seu mecanismo de produção e criaram fábricas em Bagdá, Damasco e Trípoli. A primeira fábrica européia surgiu na Espanha, ainda sob dominação árabe, no ano de 1150. A partir daí, o papel começou a desalojar o pergaminho como matéria-prima básica para a elaboração de livros.

A imprensa nasceu no contexto do Renascimento, no seio das enormes transformações que sacudiam a Europa e das quais a própria imprensa seria a mais extraordinária. Nenhuma das revoluções vividas pela humanidade poderia se lhe comparar. Em 1456 - como um raio que cai do céu azul - Johannes Gutenberg surpreendeu o mundo usando fragmentos de chumbo fundido que continham letras em relevo. Estas, embebidas em tinta e sob pressão de uma grande prensa de madeira, ficavam reproduzidas no papel. Logo veio à luz, na cidade de Mogúncia, a sua Bíblia em dois volumes e mais de mil e duzentas páginas impressas.

Naquele momento, liquidava-se com o monopólio do saber da Igreja, simbolizado pelos velhos códices, atados por correntes nas estantes dos mosteiros. Os livros agora poderiam ser transportados, guardados em casa, democratizados. A cultura e a maneira de ver o mundo não eram mais determinadas pelas autoridades eclesiásticas. A multiplicidade de opiniões - originária da livre comparação de vários livros, de várias idéias - inaugurava o mundo moderno.

A partir daí o livro se transformou no principal agente de fermentação intelectual da humanidade. Nele, o homem encontraria dúvidas e respostas, estímulo para a realização de seus sonhos individuais e idéias para tornar a vida social mais digna e satisfatória. Acima de tudo, o livro representaria o ideal de permanência a que todos aspiram. Não apenas a permanência do conhecimento filosófico ou científico, mas também a de experiências e de visões humanas que - sem a escrita - desapareceriam na voragem do tempo, apagando as nossas lembranças e o nosso passado.

 

Referência

http://educaterra.terra.com.br

 

Artigo 03

A História do Livro

 

Na Alemanha daqueles tempos de ocaso medieval, a burguesia já ousava contestar o poder dos nobres - e a contestação se dava por disputas armadas. Mas a infância e a adolescência de Gutenberg transcorreram em tempos de trégua e paz.

Por volta de seus 20 anos, porém, novas disputas entre nobres e burgueses o forçaram a deixar a já não tão pacata cidade natal, e o jovem culto e bem-educado foi parar em Estrasburgo, cidade na fronteira franco-alemã, que viria a fazer parte da França. Interessado pelas ciências e as artes, Gutenberg gostava também de pedras preciosas e delas fez seu ofício, tornando-se joalheiro e ourives.

Em 1437, em plena atividade, em Estrasburgo, foi chamado à justiça por uma senhorita de nome Ana Isernen Thur. Motivo: Gutenberg lhe havia prometido casamento e a moça resolveu cobrar a promessa. O ourives não fugiu ao compromisso e casou-se com Ana. Empobrecido, Gutenberg se ocupava da feitura de finas jóias, mas não podia fazer o que adorava: ler e estudar. Os livros confeccionados à mão eram caros demais e Gutenberg não tinha condições de pagar por eles. Naquela época, copiar um livro era um trabalho fenomenal. Levava tanto tempo que só os monges nos conventos podiam passar dias executando essa tarefa - em latim, é claro. Por isso os assuntos das obras eram quase sempre religiosos.

O gênio inventivo, mas carente de recursos, de Gutenberg não se conformava e imaginava um meio de produzir grandes quantidades de livros de forma muito mais rápida, para que qualquer pessoa alfabetizada pudesse ler sobre qualquer assunto. A impressão propriamente dita já existia; ele só teve de usar a cabeça para juntar várias técnicas e criar a imprensa - algo tão simples quanto o ovo em pé de Colombo.

A história da impressão sobre papel começara na China, no final do século II da era cristã.Os chineses sabiam fabricar papel, tinta e usar placas de mármore com o texto entalhado como matriz. Quatro séculos depois, o mármore foi trocado por um material mais fácil de ser trabalhado, o bloco de madeira. Os mais antigos textos impressos que se conhecem são orações budistas. Foram feitos no Japão entre os anos 764 e 770; o primeiro livro propriamente dito de que se tem notícia apareceu na China em 868. O desenvolvimento da escrita deu um novo salto no século XI graças a um alquimista chinês, Pi Cheng, que inventou algo parecido com tipos móveis, letras reutilizáveis, agrupadas para formar textos.

Mas, por alguma razão ignorada, o invento não prosperou e desapareceu junto com seu inventor. Até essa época, a Europa só conhecia da tipografia o papel. No século VII, os chineses começaram a distribuí-lo como mercadoria ao mundo árabe. A técnica de fabricação foi revelada aos árabes por prisioneiros chineses. Daí até o século XIII as usinas de papel proliferam de Bagdá, no atual Iraque, à Espanha, então sob o domínio Mouro. Mas o manual de instruções não veio junto - ou seja, o processo tipográfico permaneceu firmemente guardado em mãos chinesas.

Somente no fim do século XIV se desenvolveram por ali a xilografia, impressão com matriz de madeira, e a metalografia, com matriz de metal. Um rudimento de impressão de textos por xilografia apareceu com um holandês de nome Laurens Coster, mas a qualidade final era tão ruim que a inovação virou letra morta . Tal qual os chineses, a Europa já conhecia no princípio do século XV o papel, a tinta e a matriz. Faltava apenas uma idéia por dizer assim luminosa que juntasse isso tudo num só equipamento.

É quando entra em cena Johannes Gutenberg, o ourives culto e curioso. Ao que consta, as primeiras idéias sobre imprensa lhe ocorreram quando observava um anel com o qual os nobres selavam documentos, neles imprimindo o brasão da família. Esse anel tinha o brasão escavado em metal ou pedra preciosa e deixava uma impressão em alto-relevo sobre o lacre quente. Gutenberg achou que o mesmo princípio serviria para imprimir letras, mas logo viu que o método deveria ser posto de cabeça para baixo: em vez de escavada em um bloco de madeira, a parte que serviria para imprimir deveria ficar em alto-relevo.

Foi assim que ele imprimiu várias imagens de São Cristóvão e, como bom católico, as levou ao bispo de Estrasburgo. O bispo não podia imaginar como o ourives conseguira tantas imagens iguais, já que seus monges levavam muito tempo para desenhar apenas uma. Gutenberg, fazendo segredo de seu invento, saiu da conversa carregado de encomendas de imagens religiosas, solicitadas por sua excelência reverendíssima. Mas seu alvo continuava sendo imprimir uma página inteira. Para tanto obteve do bispo um livro emprestado e entalhou uma página na madeira. Obviamente, as palavras saíram ao contrário, um contratempo que naturalmente não acontecia com imagem dos santos.

Como era apenas uma questão de inverter os termos do problema, ele esculpiu as letras ao contrário na madeira - e deu certo. Gutenberg logo percebeu, porém, que esculpir página por página um livro em placas de madeira era um trabalho descomunal. Pensou então em cunhar as letras separadamente, primeiro em madeira, depois em chumbo  fundido. Inventou uma fôrma que pudesse segurar os tipos juntos para compor uma página. Fabricou ainda tintas e escovas próprias para espalhá-las sobre os tipos. Até aí seu trabalho se equiparava ao dos chineses de séculos atrás. Faltava o pulo-do gato - tornar o processo mecânico, para imprimir mais rápido e com melhor qualidade do que à mão.

Gutenberg desatou o nó: adaptou uma prensa que servia para produzir vinhos. O mecanismo consistia em um suporte fixo e uma parte superior móvel em forma de parafuso. A fôrma com os tipos unidos era colocada sobre o suporte, recebia uma camada de tinta e por cima a folha de papel. A parte superior era depois movida para baixo, pressionando o papel contra os tipos. Estava inventada a impressão tipográfica, uma tecnologia que sobreviveria com poucas modificações até o século XIX. Mas, então, havia muito que deixara de ser apenas um aparato para produzir cópias com rapidez. O invento de Gutenberg fizera desabar sobre uma Europa em mutação social, econômica e religiosa a idéia da difusão do conhecimento. Foi mais lenha na fogueira da efervescência cultural que acabaria por consumir a Idade Média.

A invenção da imprensa, na aurora dessa época também de grandes descobertas foi metade causa, metade efeito do movimento de transformações pelas quais passava o mundo europeu. O continente assistia ao nascimento da burguesia mercantil como ator político, buscando desalojar a aristocracia rural do centro das decisões. No campo das idéias religiosas, eclodia a crise que levaria à Reforma protestante. A disseminação dos protestos de Lutero, na escala que ocorreu, só foi possível graças ao invento daquele outro alemão dado a ourivesaria.

A curiosidade intelectual já tinha levado à criação das primeiras universidades, no século XII, e apontava agora na direção de se recuperar o conhecimento humano proveniente de qualquer fonte, como as obras dos antigos gregos e romanos, familiares apenas aos doutores da igreja.

A sociedade em que vivia Gutenberg passava por um crescimento populacional comparável ao aumento da produtividade na indústria e no comércio. Na Idade Média descobriu-se a pólvora, o relógio mecânico, aperfeiçoou-se a navegação à vela, que levaria os europeus a novos mundos. A Itália florescia em pleno Renascimento, irradiando a Europa com um desejo de enriquecimento cultural e civilização mais dinâmica. Só faltava colocar todas essas idéias no papel. Foi o que fez Gutenberg. Os livros impressos com sua invenção disseminaram o hábito de ler e escrever e deixaram a cultura ao alcance das novas classes sociais, cujo poderio deitava raízes nas cidades. Como a vida de Johannes Gutenberg passou quase sem registro, a data da invenção da prensa tipográfica é igualmente incerta. Tudo o que se sabe do inventor é o que consta nos documentos comerciais ou judiciários. Mas esses poucos papéis permitiram deduzir que, durante suas pesquisas sobre tipografia em Estrasburgo, ele gastou quase todo o dinheiro antes que chegasse a produzir qualquer coisa que lhe proporcionasse uma renda.

Por volta de 1438, formou uma sociedade com três burgueses da cidade, Andreas Dritzehn, Hans Riffe e Andreas Heilmann. Gutenberg já tinha então construído sua prensa, um segredo que guardava a sete chaves. Começou publicando folhetos e livretos religiosos, mas a morte de Dritzehn naquele mesmo ano lhe trouxe problemas com a justiça. Os irmãos Dritzehn processaram Gutenberg porque queriam herdar o direito de entrar na sociedade, mas perderam a causa. Foi nos documentos deste processo que apareceram os primeiros registros deste invento. A publicação dos livretos religiosos, que Gutenberg vendia como manuscritos, continuou por algum tempo, até que a bancarrota total o levou à cidade natal de Mainz. Provavelmente já estava ali quando imprimiu o Weltgeritch (Juízo do Mundo), um poema alemão anônimo, considerado o mais antigo testemunho da tipografia européia, do qual sobrou apenas uma página.

Em 1448, portanto com cerca de 50 anos, Gutenberg conseguiu o patrocínio de um financiador chamado Johann Fust, a quem confiou o segredo da invenção, para imprimir seu primeiro livro. Fust investiu no trabalho de Gutenberg 800 florins, soma considerável de dinheiro na época. Dois anos depois, mais 800 florins saíram do bolso de Fust para a mão de Gutenberg, mas a conta cobrada foi amarga. Gutenberg trabalhava com o auxílio de Peter Schoffer, um artesão de tipos tão bom quanto ele próprio. Em 1455, como o livro não ficou pronto, Fust cobrou judicialmente a devolução do financiamento. Gutenberg tentou imprimir às pressas as Cartas de Indulgência do papa Nicolau V, de venda rápida, mas não escapou à falência. A oficina de impressão caiu nas mãos de Fust e Schoffer, que por volta de 1456 publicaram o primeiro livro impresso: a chamada Bíblia de 42 linhas, obra de 642 páginas, com tiragem de duzentos exemplares. Tinha esse nome porque cada uma das duas colunas em suas páginas tinha 42 linhas. Saiu sem data nem local ou nome dos impressores.

Era oficialmente a Bíblia de Fust. Mas fazendo justiça ao seu verdadeiro autor foi apelidada de A Bíblia de Gutenberg. Johann Fust e Peter Schoffer, que viria a se tornar seu genro, publicaram um ano depois o primeiro livro com indicação de data, local de edição e impressores, O Saltério Latino, uma versão dos Salmos do Antigo Testamento. Fust parecia ter a noção de que o invento em seu poder era fantástico - ele fazia seus empregados jurar sobre a Bíblia que não revelariam a ninguém os segredos da impressão e mantinha-os sob algo próximo a um cárcere privado. O pobre e densonrado Gutenberg, por sua vez, só escapou da ruína total graças a um funcionário municipal de Mainz, Konrad Humery, que lhe proporcionou os meios de montar outra oficina de impressão.

Não se sabe ao certo se Gutenberg deu continuidade ao seu trabalho. Acredita-se que tenha imprimido ainda o Catholicon do frade, Johannes Balbus, e uma Bíblia de 36 linhas. Mas a autoria da impressão dessas duas obras, principalmente a da Bíblia, é duvidosa, pois são de qualidade inferior à que Gutenberg já alcançara. Em 1462, Gutenberg voltou a Estrasburgo para fugir de novas guerras em Mainz. Três anos depois, ele regressaria à terra natal sob a proteção do arcebispo Adolfo II, que ainda por cima lhe proporcionou uma pensão, garantindo roupas, comida e vinho. Em fevereiro de 1468, com aproximadamente 70 anos, o inventor da prensa tipográfica morreu.

A desavença com Johann Fust quase custara a Gutenberg a paternidade de seu invento. A bíblia de 42 linhas saiu sem créditos e o saltério, que usava a mesma técnica, levava apenas o crédito de Schoffer. A escassa documentação poderia deixar obscuro também esse ponto em sua vida, não fosse o esforço de alguns contemporâneos, como o padre Adam Gelthus, que fez inscrever no túmulo de Gutenberg: " O inventor da arte de imprimir". O próprio neto de Fust e filho de Schoffer, Johannes, eliminou as dúvidas ao escrever na dedicatória de um livro ao imperador Maximiliano, 1505, ter sido a arte da tipografia inventada em Mainz "pelo engenhoso Johannes Gutenberg".

Referência

Coluna "Perfil" da Revista Superinteressante

 

Artigo 04

Breve história do Livro

 

Porque amanhã é o Dia Mundial do Livro, este blog, que exalta o livro e existe por causa dele, não podia deixar de explorar este mágico objecto. E não há melhor forma de conhecer algo do que descobrir a sua história.

Todos nós acompanhamos na escola, em História, o crescimento das grandes civilizações e o desenvolver da Humanidade, portanto, não é novidade que a invenção da escrita foi um dos maiores passos do Homem. Ajudou a desenvolver toda uma complexa sociedade, nomeadamente com registos históricos, religiosos, científicos e claro, com o florescer da Literatura.

Todos estes factos já são sabidos, e como tal, o que pretendo aqui fazer não é mais do que marcar esta data e avivar a memória aos leitores mais desatentos com uma breve síntese desta história.

Falar desta evolução é falar de evolução social, cultural e até geográfica, e como tal a história do Livro está directamente ligada à história da Humanidade.

Hoje em dia, designamos livro como “um volume transportável, composto por, pelo menos, 49 páginas, sem contar as capas, encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens e que forma uma publicação unitária (ou foi concebido como tal) ou a parte principal de um trabalho literário, científico ou outro” (UNESCO), no entanto, nem sempre foi assim.

Na civilização mais antiga da Humanidade, a Suméria, o livro era um tijolo de barro cozido, argila ou pedra, com textos gravados ou cunhados. Esse tipo de escrita é datado de 3500 anos A.C. e é o primeiro registro humano de escrita.

A evolução deste registro deu-se no Egipto com os rolos de papiro que chegavam a vinte metros de comprimento, escritos com hieróglifos. O termo hieróglifo advém da união de duas palavras gregas: hierós (sagrado) e glyphós (escrita), desde logo uma adoração às palavras.

Os indianos faziam livros de folhas de palmeiras. Os maias e os astecas em forma de sanfona, de um material existente entre a casca das árvores e de madeira. Os chineses, por sua vez, utilizavam rolos de seda para fazer os livros e os romanos escreviam em tábuas de madeira cobertas com cera.

Com o surgimento do pergaminho, feito geralmente de pele de carneiro, tornou-se possível o fabrico de livros como os que hoje conhecemos, contudo diferentes dos actuais no tamanho, pois eram enormes, e caros, pois necessitavam da pele de vários animais.

Mais tarde, embora conhecido muito tempo na China, o papel chega à Europa e com o invento da prensa de Gutenberg, o livro impresso, feito de papéis costurados e posteriormente encapados, torna-se realidade. Com essa invenção foi possível fazer vários exemplares dum mesmo livro a um preço acessível, popularizando e democratizando a leitura.

No entanto, a história do livro continua. Desde a antiguidade, o registro da escrita é acompanhado pela religiosidade e pelos privilégios daqueles que de alguma forma mantinham a sociedade sob controle. Isto levou a censuras, como o Index, da Igreja Católica, e a muitas outras Listas de Livros Proibidos.

Adorados desde antiguidade, hoje em dia a evolução continua a dar-se. E-books e audio books são cada vez mais comuns e nenhum de nós sabe até onde a história do livro irá. O essencial é que este importante e mágico objecto continue a fazer parte da história da Humanidade, influenciando-a e adaptando-se a ela.

Depois deste post, que tal pegar num livro e começar desde já a fazer parte desta história? Não há razões para arrependimento, apenas para...

 

Referência

http://oslivros.blogs.sapo.pt/28719.html